Organismos Geneticamente Modificados, um Veneno-letal Legalizado para Consumo da Humanidade

20 Maio

 

Por: Agostinho Bento e Clemente Ntauazi

 

“O ser humano podia se reconciliar com o planeta e ver o que pode fazer para ser querido (pelo planeta) só que agente não percebe, não enxergamos porque estamos desligados do planeta achando que somos inteligente e não vendo que somos parte de um sistema inteligente (planeta)”, Ernst Gotdch in Syntropylife.

 

(Maputo, 20 de Maio de 2016) – Na década 90, o mundo acorda dos escombros das duas devastadoras guerras mundiais, fenómeno que foi precedido com o antagonismo ideológico entre os Estados Unidos da América (EUA) e a ex – União das Repúblicas Socialistas soviética (URSS). Como forma de responder as devastações das guerras, os países consagraram o “desenvolvimento económico”como agenda dominante e, a mesma só poderia ser alcançada mediante investimentos privados em sectores estratégicos como a agricultura. Portanto, o sector da agricultura acabou sendo prioritário para a maior parte das empresas que foram criadas após o conflito que o mundo testemunhou. Assim, as empresas que foram usadas para produzir armamento, tiveram que concentrar as suas actividades económicas em áreas ligadas a Biotecnologia. Doravante, nascia assim, no campo da biotecnologia a actividade de manipulação dos genes dos seres vivos, uma actividade nunca antes testemunhada na vida da humanidade.

 

Portanto, os proprietários das grandes empresas defendiam que caso tivessem o controlo sobre o sector das sementes, teriam o controlo sobre o sistema de produção de comida a nível mundial e que a humanidade iria totalmente depender destas empresas para a sua sobrevivência. De facto, o jogo virado para a biotecnologia, levou várias empresas a realizar testes de modificação dos genes dos seres vivos, incluindo os das plantas. Das várias pesquisas levadas a cabo no campo da Biotecnologia, vieram ao mundo os primeiros resultados que mostrava que era possível trocar genes dos animais para as plantas de culturas comestíveis.

As plantas e as sementes descobertas e que tornaram propriedade das empresas foram permitidas a serem comercializadas e usadas pelos agricultores nos países tais como EUA e em alguns países da União Europeia. Mas para isso, os Estados foram desempenhando papéis importantes na aprovação de leis que permitia o uso e a comercialização de sementes e Organismos Geneticamente Modificadas. A partir deste triunfo, as empresas de produção de sementes foram acumulando várias somas de dinheiro e, com base nestes fundos, foram fortificando-se cada vez mais. Fortificadas e detendo o poder de influenciar o processo de tomada de decisão e agenda dos Estados, as empresas, através de propagandas e marketing foram alastrando a ideia de que os Organismo Geneticamente Modificados é a solução para por fim a fome no Mundo, principalmente nos países em desenvolvimento onde há elevada taxa de pessoas que enfrentam escassez de alimento.

Assim, as empresas provenientes dos países com forte recursos financeiros, em consonância com as agências de desenvolvimento e corporação, o sector privado e instituições de pesquisa embarcam na promoção e uso dos produtos Geneticamente Modificados em países em desenvolvimento de forma a serem usados pelos agricultores e por comunidades de camponeses.

Portanto, dos vários continentes com elevado nível de insegurança alimentar, a África constitui prioridade e destino das várias empresas produtoras de sementes e Organismos Geneticamente Modificados. A entrada das multinacionais produtoras de OGM tem sido acompanhado por propagandas falsa que visam convencer as comunidades camponesas a optar pelo uso de transgénicos. Mas, como as comunidades camponesas africanas herdaram um sistema de produção de sementes de variedades locais dos seus antepassados e, atendendo que os vários Estados africanos tinham elaborado regulamentos ou leis de sementes que visavam impedir a entrada e uso de Organismos Geneticamente Modificadas, entrada dessas empresas no continente africano, tem sido acompanhado pela revisão de leis, regulamentos e decretos que visa forçar as comunidades camponesas a usar as sementes e Organismos Geneticamente Modificadas das empresas Multinacionais.

Para forçar as comunidades camponesas a usar as sementes e Organismos Geneticamente modificadas, as empresas tem muitas vezes usado o seu poder financeiro para influenciar a agenda e o processo de tomada de decisão dos Estados africanos e dos seus países de origem para fazer prevalecer a sua agenda a nível das comunidades camponesas. Dai que, em muitas vezes, os Estados e as agências internacionais de desenvolvimento tem carregado consigo discursos que incentivam os governos dos países em desenvolvimento a promover o uso de OGMs em nome do desenvolvimento. Todavia, os países que não tem acatado a agenda dos países desenvolvidos e das agências internacionais de desenvolvimento tem sido excomungados da lista dos países que possam constituir destino dos investimentos provenientes dos países ricos.

Moçambique, à semelhança de vários Estados africanos, tem estado durante vários anos na mira das empresas multinacionais produtoras de sementes e Organismos Geneticamente Modificados. Para ceder a esta pressão internacional, Moçambique fez a revisão dos principais instrumentos de lei que impediam a exportação e o uso de Organismos Geneticamente Modificados no território Nacional, com destaque para o regulamento de produção, comercialização e certificação de sementes e o decreto de bio – segurança relativa à gestão de OGMs, dois principais instrumentos que foram alterados devido a pressão das agências internacionais de desenvolvimento e das empresas produtoras de sementes.

Todavia, sendo Moçambique membro de G8 da Nova Aliança para a Segurança Alimentar e Nutricional, um grupo composto por 7 países mais desenvolvidos do Mundo que apoiam e promovem o uso de OGM e uma agricultura baseada em sementes híbridas e, sendo um dos seus parceiros – chave a Water efficient Maize for Africa (WEMA), um projecto desenvolvido em 5 países (Quénia, Uganda, Tanzânia, África do Sul e Moçambique), o seu objectivo é produzir tanto o milho convencional e GMO que são tolerantes à seca para os camponeses. O projecto recebeu 85 milhões de dólares até agora pela Fundação Bill e Melinda Gates, a G. Buffet Fundação Howard e USAID para desenvolver trabalhos de pesquisa de transgénicos e OGM nos 5 países.

Em Moçambique, os trabalhos de pesquisa estão a decorrer no distrito de Chokwe. Informação tornados disponível a ADECRU indicam que o processo está numa fase muito avançada e que o projecto enviou recentemente alguns engenheiros agrónomos moçambicanos para serem treinados no Canada para que, quando o projecto libertar as três variedades de sementes convencionais ao longo deste ano, estes possam posteriormente levar a cabo o ensaio em zonas baixas médias, zonas de maior produtividade, no caso de Ângonia na província de Tete, no centro do país.

Portanto, Moçambique abre a porta para a entrada de semente geneticamente modificadas e semente convencional, num momento em que o mundo discute sobre a segurança de manuseamento de Organismos Geneticamente Modificados. O protocolo de Cartagena na qual Moçambique é signatária chama atenção a necessidade de ter em conta a biodiversidade. O outro receio está ligado aos riscos associados a saúde dos homens que ingere os Organismos Geneticamente modificados. Mas, é necessário dizer que os OGMs representam vários riscos para os usuários e consumidores. Os primeiros riscos estão ao nível molecular, os quais são invisíveis ao olho nu. Portanto, a inserção de gene diferente, faz com que o novo gene passa a dominar o gene antigo e consequentemente muda a característica natural da planta ou animal no caso específico, pois há um novo tipo de ADN.

Doravante, os químicos usados pela MOSANTO, parceira do projecto WEMA tais como Roundup[1] são perigosos, são maioritariamente usados para a pulverização aérea e consequentemente queima o solo e as plantas. É necessário sublinhar que todos os pesticidas são venenos e reduzem os micros nutrientes no solo, microbial e matam a biodiversidade. Ao nível da saúde, os OGM provocam o aparecimento de doenças crónicas como câncer, diabete, Alzheimer e o desenvolvimento de novas pragas, desequilibrando por completo a biodiversidade, um grande atropelo ao tratado de Cartagena. Não obstante, o outro problema está associado a forma como são confecionados os alimentos OGMs, pois, estes assumem uma forma diferente de preparar em detrimento aos alimentos naturais. Portanto, isto remete nos a muitas incertezas e a um perigo porque, nuca se sabe como preparar um determinado tipo de alimento GMO.

Olhando para os discursos e publicidades lançadas pelo projecto WEMA em Moçambique, os quais apontam a potencialidade dos OGMs em resolver o problema da fome e da pobreza, ADECRU afiança que os OGMs não irão reduzir a fome muito menos a pobreza em Moçambique. O maior problema em Moçambique não se traduz apenas na falta de alimentos, mas também na falta de poder de compra da população associado aos altos índices de pobreza. Contudo, a introdução de OGM em Moçambique, assim como em outros países da África transfigura-se numa agenda transnacional bastante complexa camuflada na filantropia, na qual as comunidades camponesas serão apenas usados para produzir grandes quantidades de lucros a favor das grandes multinacionais e consequentemente provocar o aumento da pobreza.

Os argumentos acima apresentados são evidente de que o modelo da biotecnologia está longe da realidade de um país cujo 80% da sua população tem na agricultura como a sua principal fonte de vida, não responde as necessidades mais profundas dos povos, sêmea sofrimento agudo a camada mais pobre em países pobres como Moçambique e pouco contribui para o melhoramento do clima, da Biodiversidade, para além de que, afecta profundamente o sistema de produção das comunidades camponesas.

Olhando para esta dicotomia, a ADECRU defende que este pressuposto suscita a introdução de novos paradigmas que necessariamente podem responder aos objectivos sócio – económico e ambientais das comunidades camponesas. Portanto, para ADECRU, transformar o sistema tradicional agrícola usado pelas comunidades camponesas rurais através da introdução de técnicas e tecnologias que integram os processos de agroecologia na produção de alimentos, é condição sin qua non para a implementação de uma agricultura sustentável, um sistema que visa minimiza os efeitos adversos ao ambiente e a saúde[2]. Mas para tal, a ADECRU defende que é necessário que as comunidades camponesas tenham o controlo e a posse da terra, agua florestas, sementes de variedades locais, entre e outros bens patrimoniais e históricos.

A ADECRU defende ainda que, não se pode resolver o problema da fome ou da baixa produtividade em Moçambique aplicando o modo de produção industrial, produção de monoculturas em grande escala e muito menos com a implementação no território nacional de transgénicos e Organismos Geneticamente Modificados. Para ADECRU, a solução assenta-se no apoio as comunidades camponesas em técnicas adequadas e integradas nos processos de agroecologia o que passa por revitalizar e valorizar os sistemas locais de produção de variedades locais de sementes, uso de compostos orgânicos para fertilizar o solo, de modo a aumentar o rendimento e contribuir para o desenvolvimento das comunidades rurais.

 

Acção Académica para o Desenvolvimento das Comunidades Rurais – ADECRU

E-mail: adecru2007@gmail.com

Web: www.wordpress.com

Cel: +258827400026/846104930

 

Parceiro

20_05_2016_06_58_12

 

[1]O glifosato é o “princípio ativo” do herbicida Roundup (da Monsanto), o mais utilizado do mundo, e de outras formulações comerciais parecidas. Ele foi avaliado em mamíferos previamente a sua autorização comercial. Dessa forma, esses herbicidas podem afetar todas as células vivas, inclusive as humanas. Isso porém acaba sendo negligenciado porque o glifosato e o Roundup são tratados como se fossem uma única coisa e a não toxicidade presumida do primeiro serve de base para as autorizações do segundo. Os órgãos reguladores e os fabricantes de herbicidas à base de glifosato fazem avaliações com o glifosato sozinho, e não com o herbicida em suas formulações comerciais. Os detalhes dessas avaliações são considerados confidenciais e mantidos sob sigilo pela indústria e órgãos de saúde e meio ambiente(Séralini G. E., et al, 2012. Long term toxicity of a Roundup herbicide and a Roundup-tolerant genetically modified maize.

[2]Organizacao Mundial da Saude (2005). Modern Food Biotechnology, human health and Development: an evidence-based study, departamento de Segurançaalimentar da OMS

Advertisements

Uma resposta to “Organismos Geneticamente Modificados, um Veneno-letal Legalizado para Consumo da Humanidade”

  1. Angelo Mulucuntaia Maio 27, 2016 às 8:20 am #

    Boa!!

    Para constar, agradecer a ADECRU pela aula e informação disponibilizada, ha que considerar. Excelente!

    Agora, quanto aos OGMs o que o governo que pelo que se verificou é signatário dos acordos de Cartagena o que faz para impedir a entrada deste tipo de sementes dentro do nosso território, pois muito se verifica que o governo moçambicano esta não só sofrendo pressão para tentar estancar o mais rápido e em pouco tempo a fome em Moçambique, por esta razão aceita certos projectos sem mesmo procurar saber as razoes e pretensões deste projecto.

    No artigo, refere-se dos danos que os Organismos Geneticamente Modificados podem para alem de causar doenças crónicas como câncer, diabete, Alzheimer, pode substituir o ADN pelo que esta sendo consumido, o que se deve fazer para mostrar ao Estado moçambicano da possível existência e eclosão de certas doenças que depois podem levar anos para serem estancados, ou seja, esta a se procurar sarna para depois se coçar.

    Estar de acordo com a ADECRU quando afirma que “(…) não se pode resolver o problema da fome ou da baixa produtividade em Moçambique aplicando o modo de produção industrial, produção de monoculturas em grande escala e muito menos com a implementação no território nacional de transgénicos e Organismos Geneticamente Modificados”.

    Então ai a pergunta que se faz quanto aos mecanismos de confeccionamento destes produtos pois se sabe através do artigo que nada se sabe da maneira que podem ser bem confeccionados para o seu devido consumo.

    Para terminar, desejar mais forca a ADECRU e que nos traga mais matérias em forma de informação e saber.

    Ângelo Alexandre Mulucuntaia

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: