Pragas desafiam técnicas tradicionais de conservação de sementes no distrito de Chibabava

Nas comunidades de Mucondja e Chicuacha no Distrito de Chibabava, província de Sofola, famílias guardiãs de sementes nativas lutam pela conservação de sementes nativas, devido ao recrudescimento de pragas.

Dados colhidos pela Acção Académica para o Desenvolvimento das Comunidades rurais- ADECRU, nesta região indicam que nos últimos tempos, a conservação de sementes nativas tem sido um crescente desafio, pois as pragas têm desafiado as técnicas costumeiras de conservação de sementes nativas.

Construímos os nossos celeiros um pouco para cima e antes fazíamos fumaça por baixo para afugentar os bichos que acabam as sementes, mas agora nem com isso conseguimos controlar as pragas, pós estão cada vez mais resistentes”, contou a equipa da ADECRU, Elisa José Moiana, uma moradora da comunidade de Mucondja.

Guardiã de sementes nativas mostrando os estragos causados pelas pragas

Junto do seu celeiro, construído na base de estacas e coberta de capim, Elisa Moiana, enquanto conversava com a equipa da ADECRU mostrou através de uma espiga de milho, os estragos provocados pelas pragas.

Outro camponês daquela comunidade contou a ADECRU que para além de fumaça, a comunidade recorre ainda a “pedaços de uma árvore [localmente conhecida por Mtovote[1]] para embalsamar as sementes. “A árvore tem um cheiro muito forte e afugentava as pragas, mas agora não surte efeito, a praga tem consumido o milho nos celeiros”, acrescentou João Djivo.

Segundo os guardiões de sementes nativas, a conservação da semente com recurso as técnicas tradicionais tem cada vez menos efeitos desejáveis para as pragas. Na época de sementeiras, por não terem garantias da qualidade da semente, os produtores são forçados a lançarem à terra, por cada cova, no caso específico do milho, pelo menos 12 sementes, na esperança de que pelo menos 4 germinem.

Exemplo de semente que germinou após lançamento de 12 na cova

Aqueles camponeses também estão preocupados com o abandono das técnicas e conhecimentos passados de geração em geração. Contam que os mesmos representam um movimento de resistência que vem enfraquecendo, diante do modelo de agricultura proposto pelo agro-negócio.

A Acção Académica para o Desenvolvimento das Comunidades Rurais- ADECRU encontra-se a realizar o mapeamento e registo de famílias que tem sementes nativas e portadoras de métodos de conservação, num sistema de Casa de Sementes em 18 comunidades rurais das Províncias de Sofala, Manica, Zambézia e Nampula.

Pretende-se com esta iniciativa fomentar um movimento comunitário de advocacia e defesa do direito a alimentação e de fortalecimento dos sistemas locais de produção camponesa, assim como, promover a valorização de variedades locais de plantas e sementes nas comunidades rurais, preservando não só as sementes nativas, mas também a cultura, os saberes locais e a agro-ecologia, num período em que é visível o crescimento de pacotes tecnológicos das grandes empresas transnacionais no sector da agricultura que é caracterizado pelo uso intensivo de agro-tóxicos e sementes certificadas, ameaçando a soberania alimentar dos povos.

A actividade faz parte de uma acção global iniciada em 2019, com objectivo de apoiar as comunidades atingidas pelo ciclone IDAI na recuperação de machambas e adaptação a uma agricultura ecológica e resiliente as mudanças climáticas.

Na ocasião realizaram-se oficinas de conservação, armazenamento de sementes e produção de repelentes biológicos, num intercâmbio de trocar experiencias entre os modos de conservação e técnicas de armazenamento de sementes utilizadas pelos camponeses do Brasil e Moçambique.

As práticas baseavam-se no uso de materiais locais, acessíveis e de baixo custo no caso da sua compra como por exemplo a cinza, cebola, trigo, alho, piripiri (pimenta), materiais acessíveis, de fácil preparo e que não agridem ao meio ambiente, nem a saúde das pessoas.

Além de mapeio de famílias portadores de sementes nativas, a ADECRU realizou uma oficina sobre o direito a alimentação e de fortalecimento dos sistemas locais de produção camponesa, defesa dos seus interesses comuns e importância da conservação da semente nativa. Na ocasião efectuou a distribuição de 59 kites agrícolas compostos por catanas e enxadas a comunidade de Mucondja. Os kites fazem parte de um lote de 600 instrumentos que serão distribuídos em quatro (4) comunidades atingidas pelo Ciclone Idai, nos distritos de Chibabava, Búzi e Dondo, na província de Sofala.

Entrega de instrumentos agrícolas para apoiar a reconstrução das machambas na comunidade de Mucondja

[1] Denominada Pau-sândalo em português, uma árvore da família das santaláceas, também denominada sândalo-branco

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